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Tragédia antes e depois

Martha Medeiros

Estava na plateia do Teatro São Pedro assistindo a Medeia, tragédia clássica de Eurípedes, encenada pela primeira vez em Atenas em 431 a.C, e pensava: como segue atual. No palco, a força e o poder femininos, que, por mais que tenham sido, desde sempre, subjugados, jamais deixaram de existir e se traduzem no que somos hoje, mulheres famintas por realização plena. E, contraditoriamente, o drama da mãe que mata os próprios filhos para se vingar do marido que a traiu. A mente humana fugindo ao controle, em estado de fragilidade completa, perdendo a luta contra os sentimentos mais sórdidos e selvagens, nascidos da loucura de um amor ao revés.

Hoje, em 2007 d.C., homens seguem matando as namoradas por ciúme e possessão, como bem escreveu outro dia o nosso não menos clássico Paulo Sant'Ana. Mulheres descobrem que estão grávidas apenas na hora do parto, e algumas, assim que dão a luz, abandonam seus bebês em lixeiras. Vinganças são tramadas para derrubar adversários. Manobras políticas são feitas para salvar crápulas. Guerras são perpetuadas em nome de um poder sádico. Situações caóticas tornam-se incontroláveis por falta de comando, e o excesso de comando às vezes ocasiona justamente o contrário: quando há um cacique junto, instala-se o caos. Doenças dizimam tribos, a poluição corrói as metrópoles, a vaidade estimula desatinos, maridos e esposas praticam a tirania sob o mesmo teto, jovens espancam mulheres por distração, balas perdidas na verdade não se perdem: são encontradas dentro de cabeças, em meio as colunas vertebrais, alojadas em clavículas.

Antes de Cristo e depois de Cristo, a tragédia é a mesma porque o ser humano não é simples. Suas ambições não raro ultrapassam o limite do razoável e tornam-se insanas. A voracidade pelo poder denuncia uma certa insegurança emocional, e poucos se contentam comum vida boa: desejam uma vida de arrebatamentos. O bem e o mal são os dois caminhos para alcançá-la. Escolhe-se o mais curto, dependendo do nosso ponto de partida.

Qual é o nosso ponto de partida?

Pois tudo isso eu pensei dentro do teatro e sigo pensando aqui fora quando leio os jornais e percebo que a tragédia é inerente à civilização humana e que o humor, a ternura e o desapego são os únicos refúgios seguros.


Domingo, 8 de julho de 2007.



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